Liderança feminina na área financeira: desafios e perspectivas

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O futuro da liderança feminina na área financeira é promissor. Segundo a Fortune 500, ranking das 500 maiores corporações do mundo, da revista Fortune, as empresas americanas têm mais CFOs mulheres do que nunca, mostrando que elas têm tomado mais espaço e mostrado resultados positivos nos últimos anos.

A pesquisa realizada pela Crist Kolder Associates mostra que a porcentagem de CFOs do gênero feminino atingiu um recorde histórico em 2021, representando 15,1% dos 678 CFOs entrevistados. De acordo com o relatório S&P Global, empresas com CFOs do gênero feminino apresentaram desempenho superior no preço das ações, em comparação com a média do mercado. Nos 24 meses após a nomeação, CFOs mulheres viram um aumento de 6% na lucratividade e retornos de ações 8% maiores. 

Mas ainda há um caminho a ser trilhado. Segundo o Female Founders Report, estudo elaborado pela empresa de inovação Distrito em parceria com a Endeavor, rede global de empreendedorismo, e com a B2Mamy, empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema inovador, menos de 5% das startups são fundadas e lideradas por mulheres.

Para Ana Paula Pisaneschi, CEO e fundadora da fintech de renegociação de dívidas Uffa, a disparidade entre a presença de homens e mulheres nos cenários empresariais, especialmente no da inovação, está associada com os preconceitos relacionados ao gênero feminino.

“Estereótipos levam a sociedade a acreditar que somos menos confiáveis, mais frágeis, menos profissionais e, até mesmo, menos inovadoras. Como resultado, clientes, fornecedores, parceiros e investidores em potencial às vezes nos veem com ceticismo e nos associam a mais fatores de risco do que de oportunidade.”

Segundo a Bloomberg, a igualdade de gênero é uma discussão que está sendo levantada em várias frentes e busca abordar as principais áreas de inclusão, que estão criando mais oportunidades para as mulheres nas finanças e estimulando o desenvolvimento de negócios liderados por elas em todo o mundo.

De acordo com o levantamento, 31% dos conselhos corporativos são compostos por executivas. Elas possuem 39% dos cargos com altos salários e 61% das companhias exigem que haja diversidade de gênero para processos seletivos focados em gestão. Em média, 83% das entrevistadas têm uma estratégia direta para contratar mulheres.

Continue a leitura e saiba o papel, os desafios e as perspectivas da lideranças femininas na área financeira nos próximos anos.

Os desafios das lideranças femininas na área financeira

Denise Seiler, CFO e associada do W-CFO Brasil, grupo de integração de executivas de finanças, atribui o maior desafio da liderança feminina hoje às questões familiares e diferença nos salários entre homens e mulheres. De acordo com ela, a área financeira exige bastante dedicação, foco, longas horas de trabalho, e não é fácil para a mulher que quer equilibrar vida profissional e pessoal.

“Há momentos na vida que você pode desanimar ou precisa organizar sua carreira para poder se dedicar aos filhos, e depois retornar sua jornada. Além disso, há outros desafios, como ter que se provar tão ou mais competente que um homem para ter a mesma remuneração.”

Segundo a McKinsey, em seu artigo Closing the gap: Leadership perspectives on promoting women in financial services, equilibrar a vida profissional com familiar é citada por metade das mulheres de nível sênior como uma das principais razões para não querer exercer cargos executivos de alto escalão

No estudo da consultoria, quase metade dizem que continuam a arcar com a maioria das responsabilidades domésticas e familiares, enquanto apenas 13% de seus colegas homens dizem o mesmo. 

Em relação a diferença de salários entre lideranças femininas e masculinas, a análise da consultoria Willis Tower Watson revela que entre as empresas do S&P 1500 com mais de US$ 50 bilhões em valor de mercado, a diferença para mulheres CFOs é de cerca de 11% a menos.

A pesquisa Women in the Workplace, feita pela McKinsey, mostra que um dos principais desafios das mulheres é chegar aos cargos de liderança. Mulheres, especialmente de cor, têm pouca representação na liderança de empresas norte-americanas de serviços financeiros, por exemplo

Liderança feminina na área financeira: desafios e perspectivas

A Yale School of Management explica que um dos motivos de um homem chegar antes a esses cargos está relacionado ao ato de gestores subestimarem a liderança feminina através do estigma social e preconceitos inconscientes enraizados na cultura.

A Harvard Business Review ainda afirma que uma das razões pelas quais as mulheres têm maior dificuldade para avançar tão rapidamente quanto os homens é a própria falta de presença delas nessas posições. Segundo a pesquisa, quase 80% dos homens foram ativamente orientados por um CEO ou outro executivo sênior, em comparação com 69% das mulheres

A Forbes, em sua matéria 15 Biggest Challenges Women Leaders Face And How To Overcome Them, mostra que a falta de suporte de outras mulheres é um dos principais desafios. Sem mais lideranças femininas para pavimentar a trajetória, inspirar e incentivar, aquelas que entram no campo podem achar o caminho mais difícil de ser percorrido pela falta de apoio de gerentes. 

3 dicas para enfrentar esses desafios

Kristin Gayoso, especialista em contabilidade e diretora de finanças da empresa de softwares Simplebet, destaca algumas dicas para superar esses obstáculos:

  • Encontre uma mentora: Localizar lideranças femininas e estabelecer um networking com elas pode ajudar a criar novos laços de suporte e gerar aprendizado e confiança. Kristin utiliza um exemplo de quando mudou de emprego:“Havia apenas um punhado de mulheres na M&A Due Diligence, então fiquei motivada para conhecer todas elas. Trabalhei em estreita colaboração com uma gerente sênior, que me colocou sob sua asa, e ainda me lembro de muitos conselhos de carreira que ela me deu. Nunca esquecerei a maneira como ela conseguia falar com confiança em uma sala cheia de homens e explicar seu ponto de vista. A maneira como ela se portava exigia respeito e os parceiros geralmente concordavam com seus pontos de vista. Fui inspirada por sua confiança. Ela se tornou um modelo e, finalmente, uma mentora.”
  • Junte-se ou inicie um grupo de mulheres: Uma rede de conexões pode proporcionar um ambiente para todas se conhecerem, apoiarem umas às outras e interagirem com lideranças femininas que podem fornecer conselhos sobre como progredir na empresa. Também ajuda a ter um espaço para discutir os desafios que normalmente enfrentam.
  • Conheça os homens do departamento: Embora seja uma ótima ideia encontrar um grupo de apoio feminino, também é importante conhecer os homens no departamento, pois permite que você descubra quais deles são aliados e apoiam o avanço das mulheres no local de trabalho.

Para Kristin, “no final das contas, cada empresa ou equipe tem uma cultura diferente, impulsionada pelo pessoal que compõe o grupo. Navegar pelas diferenças pode ser um desafio, mas você crescerá aprendendo a trabalhar com vários tipos de pessoas. Embora ser mulher na contabilidade tenha seus desafios, altos e baixos, eu não trocaria minha trajetória profissional ou experiências por nada”.

De que forma a transformação digital está impactando a diversidade da área financeira?

Nos últimos anos, à medida que inovações foram implantadas no mercado, houve uma quebra de paradigmas que priorizavam gênero e deu-se espaço para qualificação técnica.

A necessidade de encontrar profissionais capacitados para desenvolver e operar essas tecnologias foi crescente, e com a falta deles, empresas tiveram de reestruturar sua cultura de diversidade e incluir pessoas capazes, sem distinção de gênero. Com esses avanços, o cenário está representando mais oportunidades do que desafios.

Para Denise Seiler, a transformação digital está ligada à cultura da empresa, e as que estão querendo se adaptar ao mundo digital e sua evolução tendem a dar mais espaço às mulheres e diversidade.

Em entrevista para a Sherpany, a presidente e fundadora da consultoria S2E partners, Cécile Bernheim afirma:

“Acho que as empresas estão, lenta mas seguramente, mudando, e muitas delas têm programas de diversidade para promover as mulheres. As mulheres precisam ousar, mostrar seus talentos e habilidades, para que possam obter posições de liderança. As empresas estão desenvolvendo seus negócios com a ajuda da digitalização, e as mulheres que são especialistas digitais, ou são digitalmente ágeis, claramente terão mais oportunidades oferecidas a elas.”

A especialista Elisabeth Oppenauer, no artigo Women in the digital transformation, da Digital Leaders, reforça que volatilidades e incertezas impulsionaram a adoção de um mundo tecnológico, e tecnologia digital é mais do que codificação. É também sobre pessoas e mudanças.

Para ela, a inevitável transformação digital leva à busca do know-how, e empresas não poderão se dar ao luxo de ignorar a influência e as habilidades das mulheres nesse quesito.

Perspectivas para a mulher na área financeira nos próximos anos

Para Denise Seiler, as expectativas são positivas: “Vejo hoje muito mais mulheres CFOs do que se via quando comecei minha carreira. Isso é ótimo. Mas ainda há um longo caminho pela frente. Precisamos mudar isso, e acredito que as mulheres tenham muita garra, e estão se unindo para chegar lá.”

Em entrevista para a Finance Monthly, Karen Penney, vice-presidente da Western Union Business Solutions, diz que as perspectivas para o futuro da mulher na liderança financeira são otimistas e que os resultados positivos gerados por essas líderes pode incentivar empresas a adotarem políticas de inclusão da liderança feminina.

A tecnologia e a automatização também têm contribuído para a inclusão e a oportunidade das mulheres provarem o seu alto valor. De acordo com Karen, nas últimas duas décadas, a transformação digital tem incentivado diversas empresas a promoverem o equilíbrio entre gêneros

O Termo de Compromisso aos Princípios de Empoderamento das Mulheres ou WEPs (Women’s Empowerment Principles), criado pela United Nations Global Pact com o objetivo de impulsionar a liderança das mulheres no ambiente de trabalho e na cadeia produtiva das empresas, também têm fortalecido a entrada de empresas com o objetivo de ampliar a liderança feminina.  A PwC, uma das assinantes do termo, por exemplo, estabeleceu uma meta de ter, ao menos, 30% de mulheres na alta liderança até 2025.

E a expectativa é que com mais mulheres na liderança, outras surjam. Segundo o relatório Liderança, representação e equidade de gênero em serviços financeiros, da Deloitte, para cada mulher adicionada ao C-level em uma organização, três mulheres ascendem a cargos de liderança sênior. Conhecido como efeito multiplicador, esse fenômeno é uma das razões mais importantes pelas quais as empresas devem reforçar os esforços para alcançar a equidade de gênero.

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